Dizem que as tradições morrem. Ou então defendem que deixam de fazer sentido, que a tradição é coisa de gente de mente pequena. Até pode ser verdade mas perde toda a importância quando o cheiro do pão a cozer no forno desperta memórias perdidas. Memória da infância, de dias de chuva, da manteiga a derreter no pão partido à mão sem qualquer cerimónia.
Deve haver algum estudo publicado que associa os cheiros ao despertar da memória. Devia haver um dedicado apenas ao cheiro do pão caseiro. Mas do pão a sério, daquele que é amassado por mãos calejadas ainda de madrugada e que fica a repousar durante horas numa tina de barro tapada com cobertores para depois ser cozido em forno de lenha. Daqueles a sério.
O pão é feito com tempo. A massa é trabalhada, à força de braços, até ficar no ponto que só os anos de experiência sabem qual é. Não há bimby ou máquina que os consiga substituir. Quem coze fala do lar do pão e o ar do forno. Seja lá isso o que for. Não precisamos de saber: eles sabem e nós acreditamos.
Quando levantamos os cobertores cheira a farinha crua e a massa já cresceu para o dobro. O forno está no ponto. Sem preocupação com a perfeição são moldados pães e roscas que são atirados para o centro do forno. Começa a cheirar a pão de verdade, pão que quando sai do forno tem um aspecto tosco, que vem ainda cheio de farinha e que tem de ser batido para a sacudir. Pão que queima as mãos a quem o tira do forno e que fica a descansar na bancada até que alguém perca a vergonha e vá buscar manteiga. Manteiga daquela a sério que derrete mal toca no pão.
Café quente, pão caseiro, manteiga e dois dedos de conversa perdidos com quem amassou o pão que nos despertou tantas memórias mas que parece nem ter a noção da importância do que acabou de fazer. Por respeito partimos o pão ainda quente à mão, à antiga. A última coisa que queremos é tirar a força a quem o amassou.